quinta-feira, 6 de março de 2014

Executivos adotam a MARMITA saudável

Há cerca de um ano e meio, o administrador de empresas Sérgio Cavalheiro recebeu más notícias nos resultados dos seus exames de saúde e decidiu visitar um nutricionista. A recomendação foi simples: tornar a alimentação mais saudável, comer de duas em duas horas e evitar o excesso de sal e gordura. O executivo, de 39 anos, adotou então um novo hábito e se tornou, nas suas palavras, "marmiteiro".
Diariamente, Cavalheiro leva o almoço e todos os lanches do dia para o ambiente de trabalho, o grupo de restaurantes e centro de eventos Maní Manioca, onde é gerente financeiro. O executivo, que já passou por empresas como a Unilever e a seguradora Chubb, usa a tática para fugir da comida de restaurantes, onde não é possível controlar a quantidade de sal. Assim, garante que se alimentará nos horários corretos e encaixa o hábito saudável na rotina corrida, que muitas vezes não lhe permite fazer uma hora inteira de almoço.
Cavalheiro mora na mesma rua onde trabalha, mas ainda assim prefere comer no espaço de café ou até mesmo na própria mesa, quando a coisa aperta. Se no início ele era o único no espaço, hoje tem a companhia de outros funcionários que também adotaram o hábito e de uma das sócias que "belisca" sua comida.
O resultado, para ele, já é perceptível. "Do ano passado para cá, já melhorei muito, tanto esteticamente como de saúde", explica Cavalheiro, que segue à risca as recomendações do nutricionista que visita de três em três meses também por receio da genética - ele perdeu o pai, em razão de um infarto, aos 59 anos. "A ideia é continuar assim e viver bastante."
A falta de tempo no dia a dia e a vontade de fugir dos habituais "fast foods" gordurosos são algumas das razões para cada vez mais profissionais, como Cavalheiro, adotarem o hábito de levar a própria comida para o trabalho. O crescimento de empresas de refeições prontas e de produtos como marmitas sofisticadas indicam que a prática deve ganhar ainda mais espaço nas empresas brasileiras.
Essa percepção foi a principal motivação para que o ex-executivo do Cinemark Carlos Otávio da Costa e o consultor de mercado de luxo Carlos Ferreirinha abrissem a Bento Store, no fim do ano passado. A loja vende potes, marmitas, garrafas térmicas e outros produtos de transporte de alimentos - todos importados e com preços que chegam a passar dos R$ 400. Segundo Ferreirinha, a intenção é atender a um público que tem a preocupação de se alimentar de forma saudável, mas sente a necessidade de ser mais produtivo no trabalho.
"O comportamento de levar algo para comer no trabalho sempre existiu, às vezes até de forma meio escondida ou incomodada. Por isso, buscamos produtos com uma visão mais contemporânea", explica o empresário. Para o consultor de mercado de luxo, o estoque de produtos previsto para durar quatro meses acabou em cerca de 40 dias, sendo adotados, no geral, por pessoas que já possuem uma rotina de controle alimentar, estudantes e executivos, que acabam usando o horário do almoço para adiantar o trabalho.
Hoje Ferreirinha conversa também com empresas que têm interesse em incluir os produtos no pacote de benefícios de executivos. Atualmente, a Bento Store conta com uma loja física em São Paulo e um e-commerce. Em 2014 os empresários pretendem abrir mais uma unidade na capital paulista, uma no Rio de Janeiro e outra no Nordeste.
O diretor de operações da incorporadora JHSF, Martin Gutierrez, é um dos que adotou as "marmitas gourmet" para dar uma roupagem mais moderna ao hábito de se alimentar regularmente ao longo do dia. As frutas e sanduíches que ele leva nas "lunch boxes" e sacos impermeáveis da loja ajudam a matar a fome entre reuniões ou antes de ir à academia. "Quando você trabalha muito e vive na correria, acaba se alimentando mal", diz.
A publicitária Fabiana Maia Pinheiro Franco, da Agência Click, sempre teve o hábito de levar sua própria comida para o trabalho ou pedir refeições prontas nos dias em que falta tempo ou quando usa o horário de almoço para ir à academia nadar. Se antes ela tinha uma sensação meio negativa por não encontrar muitas alternativas saudáveis, hoje ela vê mais opções que não deixam a consciência pesada.
Uma delas é o "detox", de empresas que entregam sucos ou refeições leves para o dia inteiro a fim de desintoxicar o organismo. Desde o ano passado, Fabiana faz uso da prática em média uma vez por mês - e, após tentar manter o hábito em casa, no fim de semana, e no trabalho, ela viu que é mais fácil segurar a fome no ambiente profissional. "Pra conseguir de fato, é melhor fazer no escritório", diz. Isso acabou despertando o interesse de outras colegas, que hoje fazem o mesmo.
A prática é comum, diz Andrea Godoy Jakober, sócia da Detox Market, empresa que vende kits de desintoxicação desde o início do ano passado. Como a recomendação é que a dieta seja feita das 7h às 22h30, boa parte dos sucos e alimentos são consumidos durante o expediente. "Existem grupos de pessoas da mesma empresa que combinam e fazem juntas um 'dia da dieta'", diz Andrea. "As pessoas geralmente não têm cultura alimentar muito boa e não entendem muito de nutrição. Além disso, a falta de tempo é o maior problema de todos."
Era justamente esse o motivo que fazia Emily Gruppo levar o detox para a importadora onde trabalhava - e que chamou a atenção de outras colegas que passaram a acompanhá-la na dieta. Hoje, Emily trabalha em casa para uma agência de publicidade de Nova York, mas continua com o hábito de se desintoxicar pelo menos duas vezes por mês, "dependendo de como foi o fim de semana". Atualmente, faz o detox mesmo nos dias em que precisa visitar uma multinacional de cosméticos - cliente da agência onde trabalha - levando os produtos em um isopor. Da primeira vez, houve estranhamento, mas hoje a prática é vista de forma natural.
Em atividade há pelo menos cinco anos, a Pronto Light, empresa de refeições prontas congeladas que entrega na Grande São Paulo, sentiu uma ampliação no perfil dos clientes nos últimos anos. Quando a empresa começou a operação, a maioria dos consumidores encomendava as marmitas apenas para o jantar.
Hoje, o sócio da empresa Eduardo Dimand estima que 50% dos pedidos sejam de kits completos, com todas as refeições do dia, que foram adicionados ao cardápio da empresa há cerca de três anos após sugestão dos próprios clientes. Ou seja, boa parte dessas refeições são feitas no ambiente de trabalho. "As pessoas adotam como parte da rotina."
A previsão de Dimand é que o faturamento da empresa, que chegou a R$ 3,5 milhões no ano passado, dobre em 2014. O sucesso é atribuído, além do aumento perceptível do mercado de alimentação saudável e do bom relacionamento com nutricionistas parceiros que indicam o produto, à adoção das refeições por celebridades como Ana Hickmann e Claudia Raia. "Acabamos atingindo um público AAA que não imaginávamos alcançar."
Como todo hábito realizado em público e no ambiente corporativo, levar comida para o escritório exige atenção por parte dos "marmiteiros", segundo especialistas em etiqueta nas empresas. É importante ter em mente que o ambiente de trabalho é coletivo e ficar atento para aspectos que possam incomodar os colegas, como cheiro muito forte, barulho ou a bagunça que pode ficar após a refeição. "Não é adequado ou bem-visto nas organizações fazer a refeição na mesa. O ideal é que a pessoa coma em um lugar reservado, como a copa ou uma sala de reuniões", diz Stefania Giannoni, especialista em desenvolvimento de pessoas.
O mesmo vale para o lanche da tarde, diz ela, "na medida do possível". Para Stefania, a preocupação com a imagem deve existir na hora do almoço da mesma forma que um funcionários se preocupa com a roupa. "O seu comportamento vai revelar quem você é", diz.
Além disso, a consultora de etiqueta empresarial Maria Aparecida Araújo vê a questão como uma responsabilidade dos gestores das empresas. Apesar de a legislação exigir que a maioria das companhias, dependendo da quantidade de funcionários, ofereça refeitório ou local para alimentação, não são todas que dão essa opção. "É importante olhar objetivamente para o assunto e proporcionar um local adequado", diz. Quando isso não acontece, a recomendação da consultora é buscar um canto mais reservado e manter a organização. "O profissional tem de incomodar o mínimo possível para não atrapalhar os colegas", diz.




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